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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um encontro

É certo que o projeto Exílius ao longo desses 5 anos sobrevive e resiste dos acasos e encontros com grupos e pessoas que, de alguma forma, compartilham a inquietação de nossa sútil resistência em Front(eiras).
Não dessas fronteiras castradoras que nos impede de ver o outro como semelhante a nós mesmos. Não essa fronteira que cria barreiras e destrói identidades, mas sim dessas fronteiras permeáveis, repletas de linhas de fuga, com desejo de romper com a distância e com a indiferença, que reconhece e respeita a identidade de um grupo.

Hoje, por subjetividades, por impulso, por forças que nos guiam para conhecer alguém 'quase sem querer' e por razões que a própria razão não compreende (por mais paradoxal que isso possa parecer) tive a honra e o prazer de conhecer ao vivo e a cores, o fotógrafo "Rogério Ferrari":

Saara Ocidental/ Saarauí/ Foto de Rogério Ferrari
A admiração por suas fotos já existia desde o instante que, por acaso,  encontrei-o pelo mundo virtual.
Em seu site "existências resistências", encontramos a seguinte frase:

"Uma fotografia é algo que nos pega pela mão e nos diz “venha ver”. 
O problema não é somente o que nos leva a ver, e sim, sobretudo, a forma como nos leva a ver. Se na outra mão da fotografia vão a verdade e o afã de justiça, então vale a pena viagem."

Essa frase sempre ecoou junto a mim, atriz, pesquisadora, em busca de resposta, toda vez que me perguntavam o porquê eu havia escolhido ir pro outro lado do oceano, trabalhar com crianças saharauis, se, aqui no Brasil, existem tantas outras crianças, que precisam de tanto trabalho quanto lá.
A resposta nunca encontrei sozinha. A 'pena' de uma viagem talvez tenha vindo com a resposta do Rogério.
Talvez, porque quando nos deparamos com o outro, quando olhamos profundamente e compartilhamos a história do outro, ela passa a fazer parte de nós mesmos.
Talvez, porque o nosso mundo se reflete nos olhos de quem nos olha.
É assim, além dos idiomas, dialetos, cores, dores, somos todos em algum momento um só, refletindo e sendo refletidos, necessitando do outro pra termos parâmetros de nós mesmos. 

Saara Ocidental/Saarauí/ Rogério Ferrari

Voltando de São Paulo, no ônibus, leio no livro de Rogério, "Curdos uma nação esquecida":

"A Fotografia e o fotógrafo podem ir além da luz e das sombras. Uma posição em defesa da vida e de uma sociedade justa deve transcender e superar o risco da arte como panfleto. Longe disso, o fotógrafo ou o gari, cada qual no seu fazer, não devem tergiversar sobre a necessidade de refletir e atuar sobre o seu tempo. Se o tempo é de barbárie, pois, como negligenciar isso? Constatar o tamanho das injustiças não significa admiti-las como inevitáveis. Em um tempo de conceitos e interesses escusos é preciso ver claro. De que forma, portanto, a pergunta será respondida para que não continuemos sob essa tragédia pessoal e global? O que significa protestar contra o sofrimento, como algo distinto de reconhecer sua existência? Urge romper a inércia e despir-nos da apatia que vestimos a cada manhã."

Pronto, de repente, ele novamente conversa comigo, além de suas imagens.

E pra quem não conhece, segue os links do trabalho do Rogério:
http://rogerioferrari.wordpress.com/
http://www.flickr.com/photos/rogerioferrari


Rogério Ferrari trabalha como fotógrafo independente desenvolvendo o projeto Existências-Resistências, tema que retrata a luta por terra e autodeterminação de alguns povos e movimentos sociais. O projeto evidencia, através das imagens, publicação de livros, debates e exposições fotográficas, o lado desconhecido de conhecidos conflitos: Palestinos sob ocupação israelense; Curdos, na Turquia; Zapatistas no México; Movimento dos Sem-Terra no Brasil; refugiados palestinos no Líbano e na Jordânia; refugiados Saarauis no deserto do Saara e nos territórios ocupados pelo Marrocos; Mapuches no Chile, e os ciganos na Bahia.

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