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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Radioiodoterapia

Faz tempo que não passo por aqui e isso tem um porquê.

Estou em isolamento desde quinta-feira, dia 6 de fevereiro.
Piadinha do destino: pra entender melhor o exílio, nada melhor que se exilar.

Pois bem, explico-me: tive câncer de tireoide. Um câncer raro/estranho, mas com chances altas de cura, ou seja, somente um divertimento do senhor do tempo sobre o meu corpo. 
Procedimento: cirurgia para remoção total da tireoide e tratamento com radioiodoterapia.

O grande detalhe disso tudo é que radioiodoterapia = isolamento.
Isso mesmo, de 1 a 3 dias em isolamento hospitalar até a radiação diminuir pr'um nível seguro e 7 dias de isolamento domiciliar. Total: cerca de 8 a 10 dias sem toque físico (de ninguém, inclui animais) sem poder se aproximar de ninguém, mantendo 1 mt de distância de qualquer pessoa e não permanecer mais que 1h/dia perto de alguém, mesmo mantendo distância. Quem me conhece sabe o quanto isso pode ser muito difícil.
Sim, eu me tornei uma mutante, radioativa (claro, dramatizei, exagerei, mas juro que hoje é assim que me sinto!).

Até ontem a noite, eu tive muito enjoo e não pude pedir ajuda, sem abraço. 
Dores no rosto e no pescoço. Saliva que desapareceu, limão pra chupar, tão gostoso....

Sim, houverem encontros importantes e potentes por telefone, por mensagens, por skype, mensagens carinhosas e animadoras, oásis para esse momento.

Fiquei exilada dentro de minha própria casa.
Tenho que me olhar 24h/dia, que pessoinha estranha eu sou!

Sim, eu continuo dramatizando e você pode estar pensando: o que é isso menina, são só 10 dias de tratamento, tem outros tipos de câncer muito piores.
Eu te digo: você tem razão. Eu mesma conheço pelo menos uma mão cheia de pessoas que passaram por coisas piores, sobreviveram e estão por aí lindas. Mas, eu nunca estive na pele de nenhuma delas. Pra mim tudo é novo, tudo é realidade, mas tudo também é ficção.

A adaptação a um hormônio não produzido por mim...

Essa noite foi mais tranquila.
Estou sem enjoos.

Aproveitei para rever o meu doutorado e o Projeto Exilius.
Mas isso aqui é novo, no deserto, eu podia pedir ‘um cigarro companheiro’, podia pedir um aperto de mão, trocar meia dúzia de palavras com quem estava comigo, podia brincar com o Ahmad.

Aqui é tão conhecido, é a minha casa, tão próximo de tudo. Mas, eu não posso ter ninguém por perto e isso realmente é novo.

Pensei no Coelho Branco, Coelho Vermelho. O autor é exilado em seu próprio país, não pode sair de lá e por enquanto é tudo que eu sei, talvez até saiba errado...

Encontrei algo que escrevi no deserto q que faz todo sentido aqui, foi escrito no dia 06/09/2012 - nos acampamentos de refugiados saharauis, no deserto do Saara:


Amigo, eu tô dividindo com você somente esse pedaço de pão. Só isso. É só você me perguntar o que eu realmente quero que não será nada difícil para você compreender: QUE EU ESTOU AQUI PEDINDO SÓ PRA VOCÊ CONVERSAR COMIGO. É que tantos dias se passaram que você quase se esqueceu de mim. Mas, eu não esqueci de você. Eu não esqueci de você enquanto caminhava dia e noite sem parar até cruzar a fronteira, até encontrar com outros de mim. Até que uma barreira se ergueu entre nós, até que não pude mais te olhar, até que seus olhos se foram se apagaram da minha memória. Mas, agora depois de tanto tempo você está aqui e eu não sei mais como se abraça você. Esquecemos como fazer isso. Eu to cheia de protocolos, de barreiras de segurança, é que assim não corremos os riscos dentro de nossas pequenas próprias fronteiras-pele. Desculpa, eu to vomitando palavras em você. Eu sei.

Hoje, eu comecei a achar graça nisso e acreditar que tem tudo a ver com o Projeto Exilius, por isso decidi escrever, relatar a minha experiência, um diário, como fiz com o deserto, quem sabe, se der coragem eu publico por aqui.

Por enquanto, eu indico um blog bem legal (e mais animador que esse aqui) para quem quiser conhecer mais sobre esse tipo de câncer e passar a informação pra quem precisar um dia (espero que não precise!):

http://aos27.wordpress.com/

Ah, hoje o Wolverine passou aqui em casa, tomou café comigo, um cara bem simpático ele, viu?? Foi a Verônica que indicou o caminho... Tava perdido pela rua da fazenda, coitado, sem usar celular ficou difícil dele achar o caminho daqui de casa.
E esse mundo segue completamente nonsense.



3 comentários:

  1. Oi, Érika! Você realmente está em um território novo. Por indicação médica, não precisei passar por esta etapa, então seu blog também vai ajudar muitas pessoas! :)
    E engraçado: muitas vezes - depois que o pior tinha passado, claro - eu pensei exatamente igual a você: que tudo não passou de uma traquinagem divina comigo, com meu corpo e com meus planos.

    Depois me conte como você descobriu o câncer. Eu sempre tenho essa curiosidade. :)

    Abraços,

    Savana

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  2. Savana, obrigada pelo contato!!
    Conto sim, tem um e-mail para conversarmos?

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  3. Oooi! Desculpa a demora em responder. Meu email é savanacaldas@gmail.com

    beijos!

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